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A Igreja no Mundo | Papa Leão XIV lança encíclica sobre inteligência artificial e dignidade humana

Papa Leão XIV lança encíclica sobre inteligência artificial e dignidade humana

Documento intitulado Magnifica Humanitas foi apresentado nesta segunda-feira no Vaticano com a participação de teólogos, acadêmicos e um dos fundadores da empresa de IA Anthropic.

 

O Papa Leão XIV apresentou nesta segunda-feira (25) sua primeira encíclica social, Magnifica Humanitas, dedicada ao que chamou de "custódia da pessoa humana no tempo da inteligência artificial". O documento foi lançado em cerimônia solene no Vaticano, diante de cardeais, bispos, pesquisadores e representantes do setor tecnológico, e propõe um olhar crítico sobre os rumos da tecnologia à luz do Evangelho e da doutrina social da Igreja.

 

A escolha do tema não é casual. O Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, que moderou a cerimônia, situou a encíclica na mesma linha da Rerum Novarum, com que Leão XIII respondeu, há 135 anos, aos impactos da Revolução Industrial. "Hoje, diante do poder das tecnologias digitais, a Igreja é novamente chamada a discernir as res novae da história", afirmou, usando a expressão latina do documento anterior. A diferença, destacou ele, é que agora a Igreja já participa ativamente do diálogo com governos, universidades e empresas — e pretende continuar fazendo isso "com confiança e liberdade".

 

Um dos pontos centrais da encíclica, segundo o Cardeal Fernandez, é a recusa em ceder às promessas do trans-humanismo, corrente que propõe superar os limites humanos por meio da tecnologia. Para o Papa, o limite não é um defeito a corrigir, mas o lugar onde o ser humano amadurece. "O humano não floresce apesar do limite, mas muitas vezes através do limite", escreveu Leão XIV. É no limite, argumenta o documento, que surgem a compaixão, a generosidade e a experiência espiritual. "Para suprimir totalmente a dor, seria preciso apagar também o amor", resumiu o Cardeal.

 

A professora Anna Rollins, da Universidade de Durham, destacou a dimensão política da encíclica. O texto denuncia a concentração do poder tecnológico nas mãos de poucos indivíduos ricos, que o Papa chama de "novo império", e convoca a uma civilização do amor que enfrente a polarização e a cultura da violência. Rollins chamou atenção para o fecho simbólico do documento: o Papa encerra a encíclica com o Magnificat de Maria, "hino de uma mulher plena de vida nova que proclama os termos do bem comum" numa era marcada pela desencarnação digital.

 

A presença que mais chamou atenção foi a de Christopher Olau, cofundador da Anthropic — uma das principais empresas de inteligência artificial do mundo. Em tom incomum para alguém do setor, ele reconheceu abertamente que até quem trabalha com as melhores intenções está sujeito a pressões comerciais, geopolíticas e de ambição. "É por isso que, se queremos que esta tecnologia vá bem, é enormemente importante que haja pessoas fora desses incentivos", disse, referindo-se diretamente à Igreja. Olau elencou três desafios urgentes: garantir que os ganhos da IA sejam distribuídos globalmente e não fiquem concentrados em países ricos; responder o que significa florescer como ser humano, família e comunidade nessa nova era — questão que, segundo ele, laboratórios de tecnologia não têm condições de responder; e lidar com a natureza ainda misteriosa dos próprios modelos de IA. "Encontramos estruturas que espelham resultados da neurociência humana, evidências de introspecção, estados internos que funcionalmente lembram alegria, medo e angústia. Não sei o que isso significa, mas acho que merece discernimento contínuo", admitiu.

 

A perspectiva dos mais pobres foi trazida pela professora Luciombo, que falou em nome do Sul Global. Ela denunciou o risco de um novo colonialismo digital — a IA, disse, pode ser colonial ao se apropriar de dados, extinguir a criatividade local e erodir culturas que entendem o saber como relação e diálogo. Citou trecho da encíclica que descreve crianças e adolescentes trabalhando em condições perigosas para extrair minerais que alimentam os sistemas computacionais: "Os corpos das pessoas são marcados, feridos e desgastados para que o fluxo computacional possa continuar ininterruptamente", escreveu o Papa. Trabalhadores de mineração, relatou a professora, descrevem seu local de trabalho como "trabalhamos na nossa própria sepultura".

 

O Cardeal Michael Cerny, Prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, encerrou as falas com uma imagem proposta pela própria encíclica: a de que o futuro da IA é um canteiro de obras — aberto, inacabado, que exige habilidades diversas e, acima de tudo, uma visão compartilhada. "O futuro da inteligência artificial não está escrito na tecnologia em si. Depende das nossas escolhas", afirmou.

 

A encíclica Magnifica Humanitas está disponível em português no site do Vaticano: clique aqui para ler o documento completo.

 

Diocese de Mogi das Cruzes

 

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