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Palavra do Bispo | Homilia

Homilia

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

02.03.2022

 

Abertura da Quaresma e Campanha da Fraternidade

 

“Fraternidade e Educação”

 

Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31, 26)

 

A Quaresma prepara os cristãos para celebrarem a festa mais importante: a Páscoa de Jesus Cristo, realizada com sua morte e sua ressurreição, da qual cremos que nos vem a salvação. Quaresma é tempo propício para uma verdadeira conversão, isto é, mudança de vida, fruto de um encontro com o Cristo crucificado e ressuscitado. Os 40 dias da Quaresma lembram os 40 dias que Jesus passou no deserto, em jejum e oração, antes de iniciar seu ministério público e seguir rumo à sua Paixão e Morte.

 

As cinzas que recebemos em nossas cabeças são o sinal externo de uma atitude penitencial interna: “Reconheço, Senhor, toda minha iniquidade, o meu pecado está sempre à minha frente ... criai em mim um coração que seja puro ... dai-me de novo a alegria de ser salvo ...” (Sl 50). Eis o propósito para que as práticas de penitência, piedade, sacrifícios, renúncias e oração, prenunciem e conduzam os cristãos à vitória de Cristo na Páscoa. Nós participamos dos sofrimentos de Cristo para participarmos também de sua glória e, assim, experimentar a força e o poder de Cristo Ressuscitado.

 

As leituras de hoje nos ajudam. O Profeta Joel (Jl 2,12-18) exorta seu povo a voltar para o Senhor com jejuns, lágrimas e gemidos: “rasgai o coração e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus”. O apóstolo Paulo suplica: “deixai-vos reconciliar com Deus ... É agora o tempo favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 5,20 – 6,2). No evangelho de São Mateus (Mt 6), Jesus exorta a praticar a esmola, o jejum e a oração de modo discreto, silencioso e humilde, não por aparência, “para serdes vistos e elogiados pelas pessoas”, mas na sinceridade do coração.

 

No Brasil, durante a Quaresma, há mais de meio século (58 anos), ocorre a Campanha da Fraternidade. Aliada à Quaresma, tornou-se uma especial manifestação da ação evangelizadora que liberta e renova a vida da Igreja, convergindo para a transformação da sociedade, a partir do olhar preferencial da Igreja para com os pobres. Certa ocasião, o Papa Francisco assim se expressou: “Alegra-me que, há mais de cinco décadas, a Igreja do Brasil realize, no período quaresmal, a Campanha da Fraternidade, anunciando a importância de não separar a conversão do serviço aos irmãos e irmãs, sobretudo os mais necessitados”.

 

Para este ano de 2022, a CNBB propôs o tema “Fraternidade e Educação” e como lema o versículo extraído de Provérbios 31, 26: Fala com sabedoria, ensina com amor. Esta é a terceira vez que a temática da educação será abordada na Campanha da Fraternidade, tendo já sido objeto de reflexão e ação eclesial em 1982 e 1998. O Texto Base deste ano, já na Apresentação, afirma que “... a Campanha da Fraternidade nos convoca a refletir sobre os fundamentos do ato de educar”, isto é, a educação compreendida como um processo que envolve uma comunidade ampliada, pois “educar não é um ato isolado. É encontro no qual todos são educadores e educandos. É tarefa da própria pessoa, da família, da escola, da Igreja e de toda a sociedade.

 

Na Introdução, o texto fala da necessidade de uma “profunda conversão de todos, uma verdadeira mudança de mentalidade, reorientação da vida, revisão das atitudes e busca de um caminho que promova o desenvolvimento pessoal integral, a formação para a vida fraterna e a cidadania” (nº 5).

 

O acesso à educação em todos os níveis é um direito de todos os cidadãos. Assim, “somos convidados a ver a realidade da educação em diversos âmbitos, iluminá-la com a Palavra de Deus, encontrando e redescobrindo meios eficazes, adequados e criativos, a fim de que ninguém seja excluído de um caminho educativo integral que humanize, promova a vida e estabeleça relações de proximidade, justiça e paz. A educação é um indispensável serviço à vida. Ela nos ajuda a crescer na vivência do amor, do cuidado e da fraternidade” (nº 6).

 

A Campanha da Fraternidade de 2022 foi inspirada e iluminada pelo “Pacto Educativo Global”, convocado pelo Papa Francisco (n. 190-191). Este Pacto propõe “elementos constitutivos de uma educação humanizada, que tenha a pessoa humana e sua dignidade como foco principal, que contribua na formação de pessoas abertas, integradas e interligadas, que também sejam capazes de cuidar da chamada casa comum, já que aeducação será ineficaz e os seus esforços estéreis se não se preocupar também em difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza’ (Encíclica Laudato Si’, nº 215)” (n. 7).

 

Chega-se assim ao objetivo geral da Campanha da Fraternidade:promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”, conforme “os princípios e as características da educação na perspectiva da fé cristã” (n. 142).

 

O ponto de partida da visão da Igreja, na questão da Educação, é Jesus Cristo. Seus discípulos dirigem-se a Ele como Mestre. Sua sabedoria e sua autoridade era reconhecida tanto pelos discípulos quanto pelas multidões, que se admiravam dos ensinamentos que transmitia e das obras que realizava (n. 146). Partindo da vida do seu povo – sofrimento, valores, trabalho, religiosidade – Jesus falava por meio de parábolas, metáforas, comparações, provérbios ... (n. 148). Instruía na sinagoga, no templo, na montanha, em casa, pelo caminho (n. 150). Sua pedagogia liberta (152).

 

E assim, a Igreja, do mesmo modo, desde os primórdios, percebeu a educação como um elemento essencial de sua missão (n. 156), com a consciência de que a educação da fé e a formação humana das crianças estão interligadas (n. 158). E sempre teve a educação como uma dimensão essencial da caridade, de modo que, historicamente, religiosas, religiosos e suas congregações sempre se dedicaram à educação formal de crianças pobres. É a caridade educativa (n. 165), isto é, a Igreja assumindo a tarefa educacional como vocação e como parte integrante da sua obra missionária (n. 166). De fato, a educação, realizada num contexto relacional e comunitário, tem por objetivo tornar a pessoa mais humana (n.167).

 

A educação cristã é integral e “se orienta pelo objetivo de formar a pessoa humana em todas as suas dimensões (cf. n. 173). Ocorre pois incentivar propostas educativas enraizadas no Evangelho que promovam a dignidade humana, a experiência do transcendente, a cultura do encontro, a vivência da fraternidade, a consolidação da justiça e o cuidado com a casa comum, considerando as dimensões política e ecológica da educação.

 

Há ainda outros importantes aspectos a serem consideradas num processo educativo libertador: educar como “um ato de esperança no ser humano” (cf. nº 221), educar a partir de “uma pedagogia da escuta, que rompa com o paradigma de pedagogias silenciadoras (cf. n. 28); educar para o diálogo; educar para o belo, o bom e o verdadeiro.

 

Deus é a beleza infinita (Sto. Agostinho). Existir é belo! Ser pessoa humana é belo! A criação é bela! A beleza atrai. O que é belo e o que é bom se atraem. Contemplando a beleza do que criara, “Deus viu que tudo era bom”. A cultura grega uniu o belo e o bom (kaloV kai agaqoV), de modo que, de Jesus, o bom pastor, o texto grego diz “o belo pastor” (o poimhn o kaloV).

 

“Educar é ajudar as consciências a abrirem-se para a beleza do conjunto dos seres do universo, em sua multifacetada variedade e contínua interrelação. O ser humano não é uma ilha, mas encontra sua verdade, bondade e beleza na sua justa relação com a natureza, com os outros seres humanos e com a Fonte criadora de todas as coisas” (n. 215), isto é, Deus.

 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

 

 

Dom Pedro Luiz Stringhini

Mogi das Cruzes, 02 de março de 2022

Quarta-feira de Cinzas