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Palavra do Bispo | Homilia

Homilia

Romaria diocesana da Festa do Divino Espírito Santo da Diocese de Mogi das Cruzes ao Santuário de Aparecida

 

26 de março de 2022

 

3º Sábado da Quaresma – Ano C (Os 6, 1-6; Sl 50 [51]; Lc 18, 9-14)

 

 

Irmãos e irmãs, Deus nos concede a graça e a alegria de, mais uma vez, nos encontramos neste Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – a casa da Mãe – para mais uma Romaria diocesana anual em preparação à Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes.

 

Diversos motivos enriquecem a nossa romaria: estamos no tempo da Quaresma, que prepara os católicos para celebrar a Páscoa de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Queremos também rezar pela Paz. Ontem, solenidade da Anunciação do Senhor, o Papa Francisco consagrou a Rússia e a Ucrânia, que ora se encontram em guerra, ao Imaculado Coração de Maria.

 

A diocese de Mogi das Cruzes, em solene celebração na Catedral, reuniu grande multidão que se uniu a esta consagração, numa manifestação de fé e confiança na intercessão da Virgem Maria para que o mundo encontre caminhos de Paz. Aqui também, hoje, na casa da Mãe Aparecida, como devotos em romaria, nesta celebração, unimo-nos ao clamor do Papa Francisco e de todos que rezam pela concórdia e pela Paz.

 

Que o Senhor nos abençoe e nos dê a paz! diz o salmo. “A paz é fruto da Justiça!”, disse o profeta Isaías (Is 32, 17). “Bem-aventurados os que promovem a Paz”, disse Jesus. O Espírito Santo, doador da paz, nos dá também o dom da coragem e a fortaleza para perseverar na edificação de um mundo de justiça e paz. Nossa Senhora, mãe do Príncipe da Paz, é a Rainha da Paz e nos acolhe em sua casa, acolhendo nossos pedidos e intercedendo em favor da humanidade.

 

A peregrinação que fazemos em direção ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida nos leva a uma peregrinação interior. Como romeiros, queremos adentrar o íntimo dos nossos corações, num gesto interior de reconciliação com Deus e com os irmãos. É tempo de buscar o sacramento da confissão e, através dele, a graça do perdão de nossos pecados. E também para pedir curas e alcançar outras graças.

 

A devoção ao Divino Espírito Santo, na Região do Alto Tietê, onde se encontra a Diocese de Mogi das Cruzes, remonta aos tempos coloniais (mais de quatrocentos anos), quando a fé cristã foi se consolidando nos povoados, que hoje são cidades onde esta devoção se mantêm.

 

Vemos nos diferentes grupos de devotos do Divino a riqueza e a beleza da união das raças que compõem o mestiço povo brasileiro: indígenas, negros, portugueses e outros europeus que acolheram a fé cristã e a expressam por meio da devoção à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

 

A Fé e a devoção produzem a beleza e a harmonia do congraçamento, sem contudo esconder as diferenças sociais, injustiças e desigualdades presentes no Brasil e que penalizam os pobres. Somos um povo cristão, em grande parte católico; e isso faz de nós um povo de paz, que não se traduz em passividade, alienação e acomodação mas torna aguerrido nosso compromisso cristão e cidadão de praticar a bem-aventurança reservada aos que têm fome e sede de justiça.

 

Quero amor, não sacrifícios”, afirma o Profeta Oséias, na primeira leitura, o que equivale dizer: quero misericórdia e não apenas ritos exteriores. Este versículo de Oséias tomam força nos lábios de Jesus, em diversas circunstâncias, ajudando também a interpretar o Evangelho de hoje. Esta passagem se situa no Templo de Jerusalém. Jesus põe em contraste os dois personagens que lá se encontravam, um fariseu e um cobrador de impostos. O texto fala da oração de cada um. O fariseu aproveitou a sua passagem pelo Templo e a sua oração para fazer um auto-elogio de como praticava a sua religião. O cobrador de impostos fez uma oração mais curta, mas profundamente sincera: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador” (v. 13).

 

De fato, o texto inicia explicando que “Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros” (Lc 18,9), ou seja, os próprios fariseus. Os cobradores de impostos do tempo de Jesus eram considerados pecadores públicos. Por isso, o fariseu, na sua oração, com soberba, citou o cobrador de impostos que estava no Templo, dizendo ser muito melhor que ele.

 

E Jesus, ao contrário, disse o cobrador de impostos, depois de sua peregrinação, voltou para casa justificado, portanto, perdoado. E o fariseu, não. Jesus agiu segundo a profecia de Oséias: “quero misericórdia e não oferendas”. Cristo reconheceu a sinceridade da oração do cobrador de impostos.

 

O fariseu rezava dizendo: “Ó Deus, eu te agradeço”. Agradecer a Deus é coisa boa. Onde está então o erro da oração do fariseu? Está em que ele não agradecia bondade de Deus (porque Sois bom) mas a sua própria bondade (porque eu sou bom). Ele se elogiava pelas suas próprias auto-proclamadas virtudes – “não sou como os outros homens” –; e de modo arrogante coloca-se diante de Deus como credor, de modo que Deus passa a ter obrigação de recompensá-lo por ser tão bom e praticar tantos atos de piedade.

 

Na oração, convém lembrar que Deus é o sagrado, cuja santidade e divindade estão acima de nossa humanidade. Como Moisés, diante de Deus tiramos as sandálias e não ousamos nos aproximar. Diante de Deus nos silenciamos e deixamos que Ele nos fale. Eis pois o erro do fariseu: o orgulho que ofusca a verdadeira oração.

 

Por outro lado, onde está o mérito do publicano? Está em marcar a diferença entre Deus e a criatura humana: ele “ficou à distância e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu”. Consciente de sua fragilidade, sabia que é Deus quem dirige nossos caminhos e nossos pensamentos; e que cabe a Deus falar enquanto a nós cabe abrir o coração e ouvir Sua voz, numa atitude de profundo respeito e humildade. Sendo humilde, o publicano “batia no peito” e colocava-se não como credor mas como indigno e devedor diante de Deus, que responde derramando suas graças e seu perdão. Como nos ensina São João Clímaco (c. 575-c. 650): “os homens simples não se deixam contaminar pelo veneno da vanglória, porque esta consiste na rejeição da simplicidade e num comportamento hipócrita”.

 

Em síntese, nesta parábola, Jesus mais uma vez nos ensina a rezar. Primeiro: cantar as maravilhas de Deus (e não as nossas); segundo: colocar-se com humildade diante de Deus, suplicando o perdão dos pecados; terceiro: não pedir bens temporais ou tesouros materiais, mas pedir o Espírito Santo: “pedi e vos será dado ... pois todo o que pede recebe ...”. De fato, continua Jesus, o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”.

 

Irmãos e irmãs, a Palavra de Deus é exigente: aprendamos, pela oração, a sermos simples e humildes, a sermos amorosos para com todos, misericordiosos para com os mais fracos, e, tal qual o bom samaritano, solícitos às necessidades do próximo que Deus coloca em nosso caminho. Busquemos sempre a força que vem de Deus e imploremos constantemente os dons do Divino Espírito Santo, pela intercessão da Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil!

 

Amém!

 

Dom Pedro Luiz Stringhini

Mogi das Cruzes, 26 de março de 2022