
CF 2026: FRATERNIDADE E MORADIA
Ele veio morar entre nós (Jo 1, 14)
A Igreja Católica do Brasil realiza, em 2026, a 63ª edição da Campanha da Fraternidade, trazendo a reflexão sobre o tema da moradia, isto é, o direito de toda família de ter uma digna habitação. O lema, Ele veio morar entre nós (Jo 1, 14) recorda que Jesus Cristo, filho de Deus, se encarnou, fazendo-se homem e vivendo com a Sagrada Família em Nazaré, até os trinta anos, trabalhando como carpinteiro. Iniciando seu ministério público, foi morar em Cafarnaum, a partir de onde levava uma vida itinerante, ao ponto de afirmar que as raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Mt 8, 20; Lc 9, 58).
Partindo do mistério da Encarnação de Jesus Cristo, em que o Filho de Deus se faz humano e presente na realidade cotidiana, sobretudo nas periferias e ambientes de exclusão social, a Campanha da Fraternidade se apresenta, no tempo da Quaresma, como um convite à conversão pessoal, comunitária e social.
“O problema da moradia digna não é recente e se deve, em grande parte, ao acelerado êxodo rural ocorrido a partir da metade do século XX” (Dom Odilo P. Scherer, Jornal O Estado de SP, 14.2.2026). Em 1993, já houve uma Campanha com o tema Fraternidade e a Moradia e o lema: Onde Moras? Voltar ao tema, 23 anos depois, indica que a situação não só não foi solucionada, mas continua urgente, não obstante avanços que se verificaram.
A CF é sempre uma oportunidade para os católicos e todo o povo brasileiro de ver a realidade social. Baseado em dados da Fundação João Pinheiro (FJP), de 2023/2024, “o déficit habitacional no Brasil, situa-se em aproximadamente 6 milhões de moradias. A maior parte do problema concentra-se no ônus excessivo com aluguel (especialmente no Sudeste) e na precariedade habitacional”.
Em todo o Brasil, são cerca de 300 mil moradores de rua, “especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Brasília” (Texto-base nº 46). “Milhões de outros brasileiros vivem precariamente em cortiços, favelas, palafitas e outros lugares inadequados” (idem, Dom Odilo), como as perigosas áreas de risco.
Além dos “sem teto” e moradores de rua, o Brasil conta “com cerca de 26 milhões de lares considerados inadequados, insalubres, isto é, sem saneamento, ventilação ou espaço suficiente. Esta realidade fere a dignidade dos filhos e filhas de Deus.
Dados oferecidos pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas – GIFE (Notícias 08.04.2024) apontam que 49 milhões vivem em lares sem descarte adequado de esgoto e 6,2 milhões sem abastecimento de água.
“O problema habitacional está relacionado diretamente com a exclusão social e a pobreza de grande parte da população” (Dom Odilo). No entanto, a Constituição federal de 1988, no art. 6º declara que “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados”.
É dever do Estado de garantir condições mínimas de dignidade. Daí a necessidade do envolvimento de todas as forças: a sociedade civil com sua mobilização e reivindicação, a Igreja com evangelização, apoio e conscientização, como historicamente tem feito, e o Estado com implementação de políticas públicas condizentes.
Ainda segundo o Instituto João Pinheiro, apesar do grande desafio, há um dado positivo, que é a queda do déficit habitacional desde a criação, em 2009, do Programa Minha Casa Minha Vida e a retomada desta política habitacional, em 2023. Com isso, “o chamado déficit habitacional relativo passou de 10,2% para 7,6% entre 2009 e 2023” (IJP).
Toda família acalenta o sonho de uma casa digna onde habitar. É nesse sentido que, ao lado da questão social, o tema da moradia aborda uma questão intrinsecamente humana e espiritual, conforme explica o Frei Tiago Gomes Elias (Serviço Franciscano de Solidariedade – SEFRAS). Ele afirma que, “a moradia é o espaço onde se constrói a humanidade das pessoas; é ali que se aprende a partilhar, a enfrentar as dores, a celebrar as alegrias e a criar força para seguir em frente. Quando falta o espaço, toda a estrutura interior do ser humano é afetada. A pessoa se desorienta, perde referências, vê seus sonhos se fragmentarem e passa a viver uma experiência profunda de desenraizamento”.
Nesse sentido, continua Frei Tiago, “a Campanha da Fraternidade ajuda a despertar essa consciência de uma espiritualidade que gera compromisso. A quaresma não é um tempo de passividade, mas de indignação diante do sofrimento humano”. Seguir Jesus significa assumir o lado dos empobrecidos, questionar as estruturas excludentes e transformar a oração em compromisso com a vida. A CF muito contribui para tal escopo.
Esta Campanha da Fraternidade sobre moradia, neste ano, vem iluminada pela importante Exortação Apostólica do Papa Leão XIV (4.10.2025) Dilexi Te (Eu te amei: Ap 3, 9), sobre o amor para com os pobres, isto é, a opção preferencial pelos pobres. Logo no início, o Papa afirma que o nosso “compromisso em favor dos pobres e pela erradicação das causas sociais e estruturais da pobreza, embora tenha adquirido importância nas últimas décadas, ainda continua insuficiente” (nº 10). Sim, nosso compromisso ainda é insuficiente!
O Papa lembra que persistem as desigualdades e novas formas de pobreza se apresentam. Diz ser louvável “que as Nações Unidas tenham colocado a erradicação da pobreza como um dos objetivos do Milênio” (nº 10).
Papa Leão XIV também lamenta o fato de que ainda “persiste – por vezes bem disfarçada - uma cultura que descarta os outros sem sequer perceber, tolerando com indiferença que milhões de pessoas morram de fome ou sobrevivam em condições indignas ao ser humano” (nº 11).
Como fruto desta CF, almejo que, em nossa Diocese de Mogi das Cruzes, a nossa Pastoral da Moradia se fortaleça e continue dando apoio e reforço aos Movimentos de Moradia já existentes, buscando, em parceria com os governos municipais, soluções adequadas.
Cito mais uma vez o Papa Leão, na Exortação Dilexi Te, ao valorizar os movimentos populares, constituídos por leigos e leigas da nossa Igreja e conduzidos por líderes populares. E e aqui Papa Leão cita Papa Francisco, quando diz que a atuação de tais movimentos consiste “em lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de casa e a negação dos direitos sociais e laborais” (Francisco, Discurso aos participantes no Encontro mundial dos Movimentos Populares, 28.10.2014). Desta alocução e deste encontro, é que surgiram os famosos três “Tês” propostos pelo Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho.
Iluminados pelo evangelho da quarta-feira de cinzas, em que Jesus propõe a vivência de três virtudes que levam à conversão – a esmola, a oração e o jejum – desejo a todos uma santa e abençoada quaresma, frutuosa Campanha da Fraternidade, e perseverante caminho rumo à Páscoa da Ressurreição. Convertamo-nos a Jesus Cristo porque, verdadeiramente, “ele veio morar entre nós” (cf. Jo 1, 14).
Dom Pedro Luiz Stringhini
Bispo diocesano
Mogi das Cruzes, 18 de fevereiro de 2026.