
Romaria do Divino Espírito Santo
Diocese de Mogi das Cruzes – 21 de março de 2026
Homilia
Jr 11, 18-20; Sl 7, 2-3.9bc-10.11-12; Jo 7, 40-53
“Divino Espírito Santo, fazei de nós mensageiros de vossa Paz.”
Queridos irmãos e irmãs!
Minha saudação fraterna e repleta de alegria a todos os que aqui se encontram e, particularmente, aos romeiros e romeiras da tradicional Festa do Divino Espírito Santo de Mogi das Cruzes, que hoje peregrinam até a casa da Mãe, o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.
Viemos aqui como povo peregrino. Viemos trazendo no coração a fé de tantas gerações que mantiveram a chama viva da devoção ao Divino Espírito Santo, haja vista que esta tradicional festa é celebrada, em Mogi das Cruzes, há 411 anos. Viemos como filhos e filhas que desejam caminhar juntos, guiados pelo lema que ilumina a festa deste ano: “Divino Espírito Santo, fazei de nós mensageiros de vossa Paz!”
Este pedido brota dos nossos corações e ressoa aos nossos ouvidos como uma oração profunda e um compromisso de vida. É um lema inspirado na Oração de São Francisco, sempre rezada e cantada na Igreja: Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz. Já nas bem-aventuranças do sermão da montanha, Jesus proclamou “Felizes os construtores de paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9). É a paz de Cristo! É a paz verdadeira, que todos almejamos; a paz tão sonhada pela humanidade!
O Papa Leão XIV, em sua primeira aparição pública, saudou a multidão com as palavras: A paz esteja convosco. E, desde então, vem exortando os senhores da guerra a que substituam as armas pelo diálogo e que a fraternidade vença o ódio. Em sua oração, dias atrás, rogava a Deus “que ilumine os líderes das nações, para que tenham a coragem de abandonar projetos de morte, parar a corrida ao armamento e colocar no centro a vida dos mais vulneráveis”.
Estamos no tempo da Quaresma e o Evangelho de hoje (Jo 7,40-55) nos apresenta uma cena muito significativa. Ouvindo Jesus falar, as pessoas se admiravam e começavam a se perguntar: Quem é este homem? Alguns diziam: “Este é verdadeiramente o Profeta” (Jo 7, 40). Outros afirmavam: “Ele é o Messias” (Jo 7, 41). E até os guardas, enviados para prendê-lo, voltaram impressionados e disseram: “Ninguém jamais falou como este homem” (Jo 7, 46).
O Evangelho nos mostra que as palavras de Jesus produzem efeito no coração das pessoas, despertando admiração, mudança de vida, e o desejo de professar a fé no Filho de Deus. É que Jesus, pela força do Espírito Santo, proclama a verdade de Deus, com autoridade e com a autenticidade do amor. A quaresma, e logo mais a semana santa, é tempo propício e favorável a que as palavras de Jesus não nos deixem indiferentes, mas produzam a conversão e os frutos que se espera.
Queridos irmãos e irmãs, ao escutarmos essa passagem do Evangelho, durante esta romaria, somos convidados a fazer a mesma pergunta da multidão: Quem é Jesus para nós?
Para muitos, um grande mestre da história e um exemplo de bondade a ser seguido. Mais ainda, um profeta que falou de Deus, como ouvimos, nos dois últimos domingos, a samaritana e o cego curado exclamarem: Ele é um Profeta. Nestes casos, o diálogo com Jesus prossegue e se aprofunda e, no final, professaram a fé no Filho de Deus, afirmando: Ele é o Salvador. Esta é a fé que nós, cristãos, professamos: Ele é o Messias, o Filho de Deus, aquele que revela o rosto misericordioso do Pai e nos envia o Espírito Santo.
E aqui encontramos uma ligação profunda com a nossa festa, porque quem revela plenamente o Espírito Santo é o próprio Cristo. Na noite do domingo da Ressurreição, quando aparece aos apóstolos, estando eles a portas fechadas, amedrontados, o ressuscitado dirige-se a eles com a saudação: A paz esteja convosco. Em seguida, sopra sobre eles dizendo: Recebei o Espírito Santo. Cinquenta dias depois de sua Páscoa, no dia de Pentecostes, Ele derrama sobre a Igreja o Espírito que renova todas as coisas e confirma a missão dos apóstolos.
A Festa do Divino Espírito Santo, tão querida em Mogi das Cruzes, recorda justamente isso: que Deus continua agindo na Igreja e na história humana por meio do seu Espírito. O Espírito Santo é o sopro de Deus que gera vida nova. É a força que transforma corações. É a presença que cria comunhão entre as pessoas.
“Ninguém pode dizer: ‘Jesus é o Senhor’ a não ser no Espírito Santo” (1Cor 12). E “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14, 17). Sim, justiça, paz e a alegria são dons do Divino Espírito Santo.
Quando o Espírito Santo age, o medo se transforma em coragem e a divisão em unidade; o egoísmo dá lugar à solidariedade e os conflitos cedem espaço para a Paz. E assim o lema da festa deste ano é tão atual: “Divino Espírito Santo, fazei de nós mensageiros de vossa Paz.”
Num tempo marcado por tantas tensões, conflitos, violências e divisões, famílias divididas e comunidades feridas, em que tantas pessoas perderam a esperança, ser mensageiro da paz significa, antes de tudo, viver a paz, isto é, levar reconciliação para dentro de casa, na família. Saber perdoar! Construir pontes onde existem muros! Escolher o diálogo em vez da agressividade. O Espírito Santo quer tornar o nosso coração semelhante ao coração de Cristo.
Mais do que falar sobre a paz, é preciso testemunhar a paz. O Evangelho nos lembra que as palavras têm força quando nascem de uma vida coerente. Quando os guardas disseram sobre Jesus: “Ninguém jamais falou como este homem”, foi porque suas palavras eram confirmadas por suas atitudes.
Queridos romeiros de Mogi das Cruzes vindos de tantos outros lugares! Cada irmão e irmã que de longe aqui chega traz consigo histórias, lutas, sonhos e intenções. Com alegria e fé, o peregrino entra na casa da Mãe, volta seu olhar para a pequena imagem e celebra a Eucaristia ao redor do altar de Cristo, fazendo brotar do mais profundo do coração o agradecimento por uma graça alcançada, pedindo forças e luzes para continuar caminhando.
Diante de Nossa Senhora Aparecida, Mãe do povo brasileiro, colocamos tudo nas mãos de Deus. Maria é mãe, intercessora e invoca sobre nós os dons do Espírito Santo, como no Pentecostes, estando ela reunida com os discípulos em oração. Ela nos ensina a esperar, a confiar, a abrir o coração para a ação de Deus, sabendo, como ouvimos na primeira leitura, que Ele julga com justiça e perscruta os afetos do coração” (Jr 11, 20).
Peçamos, portanto, que o Espírito Santo renove nossa fé. Que Ele renove nossas famílias e nossa comunidade. Que renove a nossa Diocese e nossa querida Festa do Divino, para que ela continue sendo um sinal vivo de evangelização.
Que nossas palavras sejam de esperança, nossos gestos sejam de misericórdia e nossa vida seja um testemunho do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do Brasil, acompanhe esta romaria, e interceda junto a Deus para que Ele abençoe a todos nós, nossas famílias, a Igreja, o Brasil e o mundo inteiro.
Divino Espírito Santo, fazei de nós mensageiros de vossa paz!
Amém.
Dom Pedro Luiz Stringhini
Mogi das Cruzes, 21 de março de 2026